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Como os agrotóxicos impactam os principais produtos na mesa dos brasileiros

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Pelos alimentos ou pela água, é quase inevitável que resíduos de agrotóxicos da produção agrícola cheguem à mesa do brasileiro. E o debate sobre os níveis aceitáveis de consumo desses produtos permanece aberto em todo o mundo. Laranja, abacaxi, couve, uva e alface são os alimentos in natura com maiores índices de resíduos com potencial "risco agudo" para o consumidor, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Responsável por esse tipo de análise no Brasil, a Anvisa fez seu último levantamento em 2016 e se concentrou nos alimentos menos processados.

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Estudiosos como Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP), notam que os limites máximos de resíduos tolerados (LMR) no Brasil são bem mais altos do que na União Europeia. Conforme estudo de 2017, para o uso do glifosato na soja, por exemplo, o Brasil aceita uma quantidade de resíduos 200 vezes maior.

É possível minimizar os riscos causados por alguns agrotóxicos à saúde humana lavando bem os alimentos em casa. Mas alguns produtos químicos entram nas células das plantas. Por isso, os agrotóxicos continuam sob constante escrutínio. Pesquisas e decisões judiciais recentes os associam a doenças como o câncer.

Por outro lado, a indústria de agroquímicos e agências reguladoras em todo o mundo garantem que, desde que consumidos em limites baixos e aplicados nas plantações conforme manda a lei, os agrotóxicos são seguros para a saúde humana.

Alimentos com agrotóxicos são seguros?
Diretora-executiva da Pesticide Action Network (PAN), um grupo que promove a agricultura orgânica nos Estados Unidos, Kristin Schafer afirma que é muito difícil avaliar se há níveis seguros para o consumo de agrotóxicos. "Mesmo níveis muito baixos podem ter impacto na nossa saúde. Isso varia muito para cada produto químico", diz.

“Também pesa o tempo de exposição ao resíduo e o momento da vida em que isso ocorre. Uma mulher grávida ou uma criança, por exemplo, podem ser mais sensíveis. Não depende só da quantidade", afirma Kristin Schafer, da PAN.
Entre os diferentes fatores a se levar em conta, estão os níveis de toxicidade de cada agroquímico e as proporções em que são aplicados. De imediato, alguns podem ser mais nocivos. Por esse motivo, ela defende que a agricultura não seja tão dependente dos agrotóxicos e adote técnicas de produção mais limpas e naturais.

Já o toxicologista Flavio Zambrone, responsável pelo Grupo de Informação e Pesquisas sobre Glifosato (Gipeg), uma organização que defende a segurança desses produtos, afirma que "o alimento que chega na mesa dos consumidores é seguro e adequado para o consumo".

Segundo ele, o que garante isso são as análises realizadas por agências reguladoras de cada país e institutos de pesquisa privados – alguns desses ligados à indústria dos agrotóxicos.

O que diz a Anvisa?
Da parte das autoridades públicas no Brasil, a Anvisa afirma que os níveis aceitos no país são seguros, mas esporadicamente reavalia alguns produtos. A última análise da Anvisa sobre produtos in natura, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), foi em 2016.

O objetivo do estudo é “avaliar os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos de origem vegetal que chegam à mesa do consumidor e, assim, promover ações com vistas à redução de riscos decorrentes da exposição aos resíduos de agrotóxicos pela dieta”, informa a agência em nota enviada ao G1.

O último monitoramento incluiu os 25 alimentos que representam cerca de 70% dos produtos de origem vegetal consumidos pelos brasileiros. O PARA se concentra exclusivamente nos alimentos menos processados.

“No caso dos alimentos processados, a tendência é que estes contaminantes se percam ao longo da cadeia produtiva”, justifica a Anvisa.
Segundo a agência, 80,3% das amostras analisadas foram consideradas satisfatórias, sendo que 42% das amostras não tinham nenhum resíduo de agrotóxico e 38,3% tinham resíduos dentro dos limites considerados seguros pela Anvisa.

Além disso, a agência reavalia esporadicamente os agrotóxicos mais usados na produção agrícola – recentemente, tanto o glifosato quanto o 2,4-D passaram por reavaliação. As consultas públicas para o glifosato estão abertas até 6 de junho. Já o 2,4-D foi mantido no mercado brasileiro, mas com restrições na sua forma de aplicação.

Os limites são aceitáveis?
Esse mesmo dado da Anvisa pode ser interpretado de outra forma: praticamente um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros tem resíduos de agrotóxicos – ainda que baixos e dentro do que é considerado regular.

De qualquer forma, a Anvisa afirma que só cerca de 1% das amostras apresenta "risco agudo" à saúde.

Na visão de Marina Lacôrte, porta-voz do Greenpeace, por mais que as agências reguladoras falem em níveis seguros, os padrões estipulados são "questionáveis", pois se baseiam na falta de evidências de que os agrotóxicos fazem mal.

“No Brasil, temos uma permissividade maior. Falta monitoramento e fiscalização. As agências se baseiam na ausência de provas, mas isso não quer dizer que a substância não vá causar mal", afirma a representante do Greenpeace.

Ela defende o chamado "princípio da precaução", isto é, se não sabemos o mal que uma substância pode fazer no longo prazo, não deveríamos usá-la. O estudo de Larissa Mies Bombardi, da USP, com base em dados de 2017, mostra que os limites máximos de resíduos tolerados no Brasil são em grande parte mais altos do que na União Europeia.

Outro problema é a presença de agrotóxicos na água. Quando se trata do 2,4-D, segundo agrotóxico mais usado no Brasil (fica atrás do glifosato), o limite de resíduos na água permitido no Brasil é 300 vezes maior do que o aceito na União Europeia – mostra o estudo de Bombardi.

"A gente não tem ideia do que acontece com os alimentos processados, que levam soja em sua composição", comenta a pesquisadora. "Reduzir o uso de agrotóxicos é uma tarefa para o mundo, uma coisa que a sociedade precisa discutir daqui pra frente."

Por outro lado, para Dionísio Gazziero, da Embrapa Soja, o controle e a avaliação realizados pela Anvisa são bastante confiáveis.

“Nossa soja é exportada para o mundo todo, precisa estar dentro de parâmetros bastante rígidos”, diz Gazziero.
O que o Brasil precisa melhorar, segundo ele, é a “conscientização, a responsabilização e a fiscalização” no uso de agrotóxicos.

O que fazer em casa para minimizar os efeitos?
As organizações que lutam pela redução no uso de agrotóxicos defendem um modelo de agricultura menos "predatório". A homogeneidade dos campos, por exemplo, é um dos principais pontos: grandes áreas com uma só cultura tendem a reduzir a biodiversidade e atrair pragas, estimulando o produtor a usar agroquímicos.

Nesse contexto, segundo Kristin Schafer, da PAN, a única alternativa do consumidor para estar seguro sobre a ausência de agrotóxicos nos vegetais é comprar alimentos orgânicos. "Se você puder encontrar um produtor local, os produtos não são necessariamente mais caros", afirma Schafer. "O impacto na saúde pode sair mais caro do que comprar produtos mais puros."

O toxicologista Zambrone, do Gipeg, diz que a higienização dos alimentos ajuda a remover resíduos de agrotóxicos.

“Todos os alimentos in natura devem ser bem lavados com água corrente. A retirada das cascas das frutas também tem papel importante”, explica Zambrone. “Em geral, o risco para os consumidores é baixo. Não se deve deixar de consumir frutas, verduras e legumes por medo dos agrotóxicos.”

Em seus manuais, a própria Anvisa recomenda uma boa higienização dos alimentos – pode-se até mesmo usar uma bucha ou escova. A agência também indica o consumo de orgânicos, "assim como os alimentos da época, que costumam receber, em média, carga menor de agroquímicos".

Para Kristin Schafer, "lavar nunca faz mal", mas é preciso saber que alguns produtos químicos entram no organismo da planta quando são aplicados nas lavouras.

Larissa Mies Bombardi, da USP, também avisa que há dois tipos de agrotóxicos nos produtos frescos:

os de contato, que ficam na parte externa do alimento;
e os sistêmicos, que circulam nas células do alimento.
"O externo podemos reduzir um pouco, lavando, mas os que entram no sistema não dá para reduzir", resume a professora. (G1)

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