Em meio a incertezas sobre o plano de retomada das aulas presenciais no Estado de São Paulo e o risco de contaminação de crianças, parte dos pais de estudantes já decidiu: não vai mandar seus filhos de volta para a escola. Na sexta-feira, 17, a gestão João Doria (PSDB) afirmou que o planejamento de volta às aulas em setembro está mantido se as condições de saúde permitirem.

 O plano prevê que as aulas sejam retomadas em 8 de setembro, de forma gradual, caso o Estado esteja na fase amarela (em que há menor taxa de infecção e ocupação de leitos) por 28 dias consecutivos. Na quinta-feira, 16, o secretário executivo do Centro de Contingência, João Gabbardo, afirmou que o plano poderia ser reavaliado, após ser questionado sobre projeções feitas pelo professor Eduardo Massad, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Massad indicou que a volta às aulas poderia provocar 17 mil mortes de crianças. Ao Estadão, mais tarde, afirmou que houve um mal-entendido sobre a projeção.

"Primeiro, é importante falar que os protocolos da educação estão mantidos. Muito mais importante que a data, é termos as condições obrigatórias sendo cumpridas - ou seja, número de casos decrescentes, Estado por 28 dias no amarelo", disse o secretário da Educação, Rossieli Soares. "As datas nós vamos medindo. No dia 24 de julho teremos outro boletim, no dia 4 de agosto teremos outro, e, se não entrarmos dentro das condições, não será necessariamente naquela data. Tem muito estudo saindo neste momento, mundo afora, e nós estamos em constante debate - seja para os estudos mais duros, mais brandos."

Mariana Pazitto, de 29 anos, mãe de um menino de 2, acompanha as pesquisas sobre os riscos de volta às aulas e mantém o plano que já tinha de não mandar o filho para a escola neste ano. O menino estudava em uma escola pública de São Paulo, fechada após o decreto de quarentena. "Ele tem convulsão febril, não pode ter febre. O meu plano é que ele não vá esse ano. Como está nesse faixa dos dois anos, não tem a obrigação de estar no colégio e não vejo necessidade, é um risco desnecessário."

 Estudante de Pedagogia, ela reconhece a importância da escola, principalmente para a socialização das crianças nessa faixa etária, mas teme pela saúde de parentes que tenham contato com o menino caso ele volte a frequentar o ambiente escolar. "Temo por ele e pela minha família, moro com minha mãe e ela é do grupo de risco (a mãe tem hipertensão). Como as crianças são assintomáticas, eu não quero arriscar."

O filho, Pietro, faz com a ajuda da mãe as atividades que as professoras mandam pelo WhatsApp. Como Mariana não está trabalhando - o estágio que fazia em uma escola particular foi suspenso - ela considera possível manter o plano de permanecer em casa com o filho.

Mãe de dois meninos, João e Pedro, de 2 e 4 anos, respectivamente, a psicóloga Maria Cecília Cinque, de 33 anos, já decidiu: não vai mandar o mais novo para a escola neste ano. O pequeno tem diabete. "Ele vai voltar só no ano que vem ou assim que tiver a vacina. Ele não é do grupo de risco porque a criança diabética não faz parte, mas não vamos pagar para ver."

A dúvida agora é em relação ao mais velho. "Nossa decisão (de não mandar o mais novo) só se mantém coerente se a gente cuidar do retorno do Pedro porque, com ele voltando, há um risco de transmissão." A família está passando a quarentena no interior de São Paulo e, caso o mais velho volte a frequentar a escola, teria de repensar toda a logística e voltar para a capital. A mãe já negociou com o colégio para que o mais velho continue acompanhando as aulas remotas, pelo menos por um tempo, em um eventual retorno.

A desistência de frequentar as aulas é mais comum na educação infantil já que a escola não é obrigatória para crianças com menos de 4 anos de idade, mas pais de alunos do ensino fundamental também avaliam com cuidado a possibilidade de retorno. "A gente vê o platô se alongando por muito tempo, acho prematuro colocar uma data (para o retorno presencial). Se estiver como está hoje, não mandaria. É um risco desnecessário", diz o consultor John Wendell, de 47 anos, pai de um menino de 8.

O filho estuda em um colégio particular de São Paulo e se adaptou bem ao modelo de aulas online, segundo o pai. Wendell teme que, em um eventual retorno, seja difícil seguir todos os protocolos de higiene. "Na idade do meu filho, a criança não tem maturidade ainda para álcool em gel, máscara", diz o pai, que vê ainda risco de que os números de infectados estejam subestimados.

Mesmo após a reabertura na capital, Wendell mantém o trabalho em home office - e reconhece que outros pais não têm essa chance. Escolas de educação infantil ouvidas pelo Estadão relatam que parte das famílias aguarda a retomada das aulas para que os filhos tenham onde ficar. Com a reabertura da economia em curso na cidade de São Paulo, muitos voltaram ao trabalho e acabaram contratando babás e cuidadoras - ou recorrendo aos avós - já que as escolas não estão abertas.

O advogado Jairas Rosa, de 36 anos, aguarda ansioso o retorno às atividades presenciais na escola onde o filho Arthur, de 4 anos, está matriculado. Na semana que vem, a mulher dele, que também é advogada, terá de voltar a trabalhar de modo presencial. O casal não tem com quem deixar o menino e já prevê contar com a ajuda dos avós, idosos, ou levar Arthur ao escritório onde Jairas trabalha. "Agora que ela (a mulher) vai ter de trabalhar, é necessário ter a escola, faz muita falta."

Diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), Arthur Fonseca Filho diz que pesquisas sobre impactos da volta às aulas na contaminação pela covid-19 têm de ser avaliadas com cuidado e que deve haver cautela também para que a população não fique atemorizada. "Temos de reconhecer que o mundo não pode ficar sem escola", diz. Em parceria com o Hospital Albert Einstein, a Abepar deve fazer um mapeamento da infraestrutura física das escolas e dos modelos de transportes utilizados pelos alunos e colaboradores. O acordo com o Einstein inclui também a criação de padrões médicos para o atendimento a casos suspeitos.

No fim de junho, a Academia Americana de Pediatria, apontou a importância de que os alunos estejam fisicamente presentes na escola. "A importância do aprendizado presencial está bem documentada e já há evidências dos impactos negativos nas crianças por causa do fechamento das escolas." O documento indica que o SARS-CoV-2 parece se comportar de maneira diferente em crianças e adolescentes do que outros vírus respiratórios comuns. Aponta que ainda há muitas dúvidas sobre a doença, mas que evidências indicam que crianças e adolescentes têm menos risco de um quadro grave decorrente da covid-19.

ESTADÃO CONTEÚDO