O livro traz passagens de 6 décadas da história política e social de Itápolis, contada em uma linguagem contagiante e ilustrado com fotos das épocas narradas.

chiquinho

(Reportagem do Jornal de Itápolis) -  Houve uma época, logo após o período ditatorial do País, em que os vereadores trabalhavam de graça. O salário do prefeito era estipulado pelos mesmos e as vezes ele chegava a ganhar menos do que um trabalhador braçal. Algo meio difícil de entender nos dias atuais, mas que aconteceu em uma época onde os políticos itapolitanos trabalhavam exclusivmente para o crescimento e desenvolvimento do município. Essas e outras histórias são narradas, de forma dinâmica e de agradável leitura no livro Memórias Políticas - Preservando a História de Itápolis, escrito por Francisco José Santarelli e que será lançado no próximo dia 27, ás 20 horas, na sede do Rotary Clube de Itápolis.

O livro é recheado de fotos do autor in loco, assim como a da capa, que ilustra a campanha do dr. Valentim Gentil para deputado estasdual, nos anos de 1930.

“Aos 16 anos eu já era apaixonado por política. Nesta época ouvia meu pai falar que Itápolis possuía um grande político, dr. Valentim Gentil, cujo nome lhe fazia justiça, pois era valente e ao mesmo tempo gentil. Quando ele foi candidato a deputado estadual, atendendo ao clamor popular, acompanhei seus comícios, registrando com uma máquina fotográfica que eu carregava comigo. Fiz a foto que ilustra a capa deste livro e mandei para ele, em seu gabinete. Ele ficou tão feliz com a foto, que me mandou uma carta de agradecimento com palavras tão carinhosas que me fez admirar ainda mais aquela figura a qual sempre ouvira meu pai falar tão bem. Foi a admiração por ele que me fez começar a pensar em entrar para a política”; conta Francisco Santarelli.

Aos 24 anos, já formado dentista, Chico Santarelli foi eleito vereador de Itápolis. “Nós fazíamos por amor a nossa cidade pois não tínhamos salário e muitas vezes eu ‘pagava para trabalhar’ (como as sessões aconteciam durante o dia e Santarelli era dentista escolar, ele perdia o dia de serviço para participar das sessões, o que era descontado em sua folha de pagamento). A prefeitura não tinha carro oficial e o prefeito ai com seu próprio carro, com todos os custos de combustível, hospedagem, refeições, pago por ele, para ir a São Paulo em busca de melhorias para nossa cidade. Dá para perceber na época a seriedade que se tinha na maneira de administrar e o cuidado com o dinheiro público. Mas nem por isso a política era amistosa. Havia tanta rivalidade que nas procissões, um grupo político ficava em uma fila e o outro na fila ao lado. Não se misturavam”; relembra sorrindo Santarelli.

Uma passagem divertida do livro é justamente sobre a rivalidade política, onde um vereador de oposição votou contra um projeto de Chico Santarelli em parceria com ele. “Apresentei - a pedido de um vereador de oposição - um projeto para que a prefeitura ajudasse a família de um trabalhador braçal, o ‘Tião Carreiro’, que havia morrido e cuja família passava por penúria. Como eu era líder do governo, ele pediu que eu apresentasse ao prefeito, porém, eu disse que iria constar o nome dele no projeto, o que o deixou feliz. Na sessão de votação o presidente pediu que os contrários se levantassem. Tal vereador, que estava distraído no momento, recebeu um cutucão do seu líder se votou contra, sem observar que era dele também o pedido. Diante do meu desagravo, falei: - Você pede para fazer o projeto, põe seu nome e vota contra”. E ele me respondeu: - Desculpa, Chico, não observei que era a votação da qual participava junto com você. O meu líder me cutucou e votei contra como de costume. O projeto foi aprovado pela maioria”

Apesar da rivalidade dentro da política, Chico conta que a amizade era grande fora dela. “Todos éramos amigos numa época de política acirrada em nossa cidade, pois não coadunava com a cultura e religiosidade de seu povo”; cita o autor no livro.

O livro traz ainda críticas ao período negro da ditadura no país. “Durante meus oitenta e três anos (hoje 85) de vida, tive a oportunidade de conviver intercalando períodos de democracia e por dois longos períodos de ditadura.... Sobre a ditadura, aprendi logo que é um regime bom somente para aqueles que participam dela...... Acredito que houve injustiças (durante a ditadura), pois até hoje clamam por reparos dos que as sofreram..... Por tudo devemos solidariamente, trabalhar no sentido de mantermos nossa querida democracia .”

Mas nem só de política é feito o livro. Nele há deliciosas passagens, como a história da fundação do Clube de Campo, Maternidade Dona Julieta Lyra e Aeroclube de Itápolis, da vinda do ‘rei’ Roberto Carlos, Nelson Gonçalves e do ator Tony Ramos no início de suas carreiras á cidade, entre tantas outras.

“O Clube de Campo de Itápolis nasceu para ser grande, acredito mesmo ser um dos mais bonitos do interior paulista, com a ideia primordial de tentar apaziguar nossa população no final da década de 60, pois o exercício político era à base de rancor, o que não era compatível com a origem de nossa cidade, que sempre cultuou a paz, o progresso e a amizade. Temerosamente, os três pioneiros fundadores do Clube de Campo, Dr. Eduardo do Amaral Lyra, dr. José Antonio Trevisan e eu iniciamos esse trabalho contando com a colaboração de um pequeno número número de adversários políticos, o que veio a facilitar a idealização desse trabalho”.

O livro faz referência ainda a dona Ignês Mursi, parteira que, nas décadas de 1920, 30 e 40, prestou relevantes serviços a população. “A bem da verdde, em todos os partos, ela se fazia presentes e somente quando de uma necessidade médica é que ela recorria....à Santa Casa de Misericórdia”.

“Sempre fui aficcionado pela preservação da história e tive mania de guardar coisas como documentos históricos, discursos políticos.... Meu objetivo, ao reunir estas crônicas em um livro, é preservar a história de Itápolis e fazer com que pessoas que foram tão importantes e tanto trabalharam por nossa cidade, não sejam esquecidas”; completa Chiquinho.

SERVIÇO:
Lançamento do livro Memórias Políticas e noite de autógrafos
Data: Sábado, 27 de fevereiro.
Local: Sede do Rotary Clube de Itápolis (em frente a igreja Nossa Senhora Aparecida)
Horário: 20 horas
Entrada :grátis.
Valor do livro: 20 reais, com renda revertida para o Hospital de Itápolis.

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